NOTA INFORMATIVA CIEVS/SSA Nº 01/2026
Vigilância Sindrômica no Município de Salvador: monitoramento oportuno de síndromes e identificação precoce de eventos de interesse em saúde pública
1. Introdução
A Vigilância Sindrômica constitui-se como uma estratégia fundamental de monitoramento oportuno, fundamentada na identificação de grupos de sinais e sintomas (síndromes) antes mesmo da confirmação laboratorial ou do fechamento do diagnóstico etiológico. Diferentemente dos sistemas de vigilância baseados predominantemente na notificação de doenças e agravos definidos por critérios específicos, a vigilância sindrômica atua a partir dos sinais e sintomas registrados durante o atendimento, antes da confirmação etiológica, permitindo permite a detecção precoce de alterações nos padrões de morbidade. Esta metodologia não substitui os fluxos de notificação compulsória estabelecidos, mas os complementa ao oferecer uma camada de alerta precoce.
A participação ativa dos profissionais de saúde, especialmente médicos e enfermeiros, é o pilar central desta estratégia, pois a qualidade do registro clínico possibilita a identificação de eventos inusitados ou surtos em estágio inicial incipiente, garantindo uma resposta rápida e eficaz do sistema de saúde pública frente a potenciais ameaças.
Os registros apresentados no painel representam atendimentos que preencheram critérios da definição sindrômica utilizada pelo sistema. Não correspondem necessariamente a casos confirmados de uma doença específica. Um aumento observado constitui um sinal epidemiológico que deve ser analisado e, quando necessário, investigado.
Monitoramento Oportuno Detecção Precoce Alerta Precoce Participação Profissional
2. Vigilância Sindrômica em Salvador: Estrutura e Fluxo
No município de Salvador, a Vigilância Sindrômica está estruturada a partir da captação sistemática de dados provenientes da Atenção Primária à Saúde (APS) e das Unidades de Pronto Atendimento (UPAs). O processo ocorre por meio da extração de informações registradas nos prontuários eletrônicos das unidades de gestão própria do município. Os dados são captados, processados e analisados pelo CIEVS Salvador dentro de um ciclo de 24 horas, o que confere ao sistema um monitoramento oportuno, com atualização diária e processamento dos dados em até 24 horas. O fluxo operacional compreende a coleta automatizada nas unidades, a consolidação técnica e análise epidemiológica pela equipe do CIEVS e, por fim, a retroalimentação dos dados através da disponibilização de painéis de Business Intelligence (BI) para os profissionais de saúde e gestores locais.
O CIEVS SSA é responsável pela condução da implantação da Abordagem de Vigilância Sindrômica, desenvolvida a partir de um Termo de Cooperação Técnica firmado em 2023 entre a SMS de Salvador, a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) e o Ministério da Saúde (MS). A iniciativa integra ferramentas de inteligência em saúde, técnicas de mineração de dados e algoritmos analíticos aplicados aos registros eletrônicos de atendimento, ampliando a capacidade local de detecção precoce de eventos de relevância epidemiológica. Atualmente, o sistema encontra-se implementado em 24 unidades de saúde da rede municipal que utilizam o mesmo modelo de prontuário eletrônico.
3. Síndromes monitoradas e suas características
O monitoramento atual em Salvador concentra-se em grupos sindrômicos de alta relevância epidemiológica, definidos pela sua capacidade de sinalizar emergências de saúde pública. Para cada atendimento identificado, são extraídas automaticamente informações anonimizadas relevantes à análise epidemiológica, como faixa etária, sexo, bairro de residência, datas de início dos sintomas e do atendimento, hipótese diagnóstica, encaminhamentos e evolução clínica.[MOLdS1.1]
Síndrome Respiratória: registros compatíveis com sinais e sintomas respiratórios definidos no algoritmo, como tosse, dispneia e outros descritores clínicos. Síndrome Diarreica: registros relacionados a diarreia, vômitos e manifestações gastrointestinais compatíveis.
Síndrome Arboviral: quadros febris associados a manifestações clínicas compatíveis com arboviroses.
A classificação é automatizada e não substitui a avaliação clínica, a investigação epidemiológica nem as definições de caso adotadas pela Vigilância Epidemiológica. Outras Síndromes: Possibilidade para inclusão de novos agrupamentos (ex: exantemáticas ou neurológicas) conforme o cenário.[MOLdS2.1]
4. Painel de Vigilância Sindrômica: Acesso e Interpretação
O CIEVS SSA disponibilizará o Painel de Vigilância Sindrômica para os profissionais de saúde da rede municipal, mediante cadastro prévio em conformidade com a política de acesso controlado.
Como Interpretar o Painel
As barras: representam o número de atendimentos identificados pela definição sindrômica.
A linha: representa o percentual desses atendimentos com definição sindrômica em relação ao total de atendimentos realizados no período.
A leitura deve considerar conjuntamente o número absoluto e o percentual, pois um aumento no número de atendimentos sindrômicos pode ocorrer simplesmente em razão do aumento do volume total de atendimentos da unidade.
5. Ações nas unidades de saúde a partir das informações
As informações geradas pela vigilância sindrômica devem ser convertidas em prática clínica e de gestão nas unidades de saúde. Ao observar um aumento na tendência de determinada síndrome no painel, as equipes locais podem reconhecer precocemente alterações no perfil de demanda da sua própria unidade.
Após a validação do sinal, poderão ser desencadeadas medidas de investigação e resposta compatíveis com a síndrome e o evento identificado, incluindo, quando indicadas, busca ativa, investigação de contatos, coleta de amostras, medidas de prevenção e controle e articulação com a rede assistencial.
Como interpretar um aumento: (1) se o aumento é absoluto ou proporcional; (2) se persiste em semanas consecutivas; (3) se está concentrado em determinada faixa etária ou sexo; (4) se existe concentração territorial[MOLdS3.1]; (5) se ocorre em uma unidade ou em várias; (6) se há casos graves, internações ou óbitos; (7) se existem notificações compulsórias relacionadas; (8) se houve alteração no volume de atendimentos, no fluxo assistencial, no funcionamento da unidade ou na qualidade do registro que possa explicar a mudança.
6. Fluxo de Comunicação com o CIEVS
ATENÇÃO: A identificação de qualquer aumento inesperado no volume de atendimentos, a ocorrência de casos com evolução clínica grave e atípica, óbitos de causa mal definida, ou o surgimento de agrupamentos de casos (clusters) no tempo e no espaço deve ser comunicada IMEDIATAMENTE à Vigilância Epidemiológica distrital e ao CIEVS Salvador.
Os dados da vigilância sindrômica serão monitorados diariamente pela equipe do CIEVS Salvador. Um aumento observado no painel, isoladamente, não caracteriza um surto. Ele constitui um sinal epidemiológico que deve ser validado. Fluxo a ser seguido:
Alteração identificada Sinal Validação Investigação epidemiológica Evento confirmado ou descartado Resposta, quando indicada.
7. Segurança da Informação e Ética
O CIEVS Salvador reitera seu compromisso com a segurança da informação e a proteção de dados. Os indicadores disponibilizados no painel correspondem a informações epidemiológicas de uso institucional, derivadas de dados de saúde e apresentadas de forma agregada, observando os princípios de confidencialidade, segurança da informação e proteção de dados pessoais, garantindo o sigilo médico e a conformidade com a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD). O acesso é estritamente institucional e o uso das informações deve ser pautado pela responsabilidade profissional e pelo interesse público, utilizando dados secundários anonimizados.
8. Responsabilidades
Quadro de Responsabilidades:
As recomendações técnicas decorrentes da identificação de sinais serão definidas pelo CIEVS SSA em articulação com as áreas técnicas competentes, conforme a natureza do evento.
9. Considerações Finais
A consolidação da Vigilância Sindrômica em Salvador representa um avanço na inteligência epidemiológica municipal, transformando dados de prontuário em ferramentas de proteção à vida. A eficácia deste sistema depende diretamente da qualidade do registro realizado na ponta e da capacidade de análise crítica dos profissionais de saúde. É fundamental orientar o preenchimento, quando disponível, de data de início dos sintomas, sinais e sintomas relevantes, bairro/local de residência, hipótese diagnóstica, gravidade, encaminhamento, internação e evolução. Registros vagos podem reduzir a capacidade de classificação e detecção oportuna.
ATENÇÃO: Limitações do monitoramento: alterações no painel podem refletir não apenas mudanças epidemiológicas, mas também variações no volume de atendimentos, fluxos assistenciais, abertura/fechamento de serviços, indisponibilidade do prontuário, reconsultas, mudanças no perfil dos usuários, qualidade do registro, sazonalidade ou alterações do algoritmo.
Todo sinal deve ser interpretado no contexto epidemiológico e assistencial!